Conforme prometido, o momento poético de hoje volta a ser mariano, isto é, sobre Nossa Senhora. O poema com que vou começar intitula-se mesmo Ave-Maria. Mas não é uma paráfrase como o da vez passada. O seu título tem antes a ver com o toque das Ave-Marias ou das Trindades, com que noutros tempos os campanários das igrejas anunciavam três momentos diários de oração, pela manhã, ao meio-dia e ao entardecer. A esta oração também se chama o Angelus ou, em tempo pascal, o Regina Coeli. Estas expressões latinas indicam a primeira ou as duas primeiras palavras das orações em latim que então se rezavam.
O poema é constituído por seis estrofes de cinco versos mais uma espécie de refrão.
O autor dele, que viveu certamente em finais do séc. XIX ou princípios do de XX, chamava-se Francisco Palha. Não conheço mais nada dele.
O poema tem algo de neo-garretiano, isto é, perpassa-o um tom tradicionalista e popular. Mas não deixa de ser um poema com o seu mérito.
AVE MARIA!
No sino da freguesia,
Três badaladas ouvi.
Sobre a terra húmida e fria,
De joelhos, mesmo aqui,
Oremos, que é findo o dia:
Ave Maria!
Descendo da serrania,
Já o pastor ao curral
Os fartos rebanhos guia:
De abundância, ao de hoje igual,
Dá-lhe amanhã outro dia,
Virgem Maria!
A mãe que o filho cria
Já no berço o vai deitar;
Um sono tranquilo envia
Sobre o seu tecto pousar
Até ao romper do dia,
Virgem Maria!
Não deixeis a ventania
As negras asas abrir.
Do perigo o nauta desvia,
Dá-lhe uma estrela a luzir
Como luz o sol do dia,
Virgem Maria!
Ao triste manda alegria,
Ao que tem fome dá pão,
A quem teu nome injuria
Dá sincera contrição,
Antes do extremo dia,
Virgem Maria!
Ao moribundo abrevia
As horas do padecer.
Livra-o de grande agonia;
Leva-o, depois de morrer,
Ao mundo do eterno dia,
Virgem Maria.
Francisco Palha
Como se vê, ele é uma sequência de pedidos, numa oração que cristãmente se preocupa senão com todos pelo menos com muita gente.
Volto agora a Bocage, ao soneto Invocando o amparo de Maria Santíssima. Depois de exaltar a Mãe de Deus no seu habitual tom grandiloquente, o poeta dirige-lhe uma prece muito humilde:
Tu, por Deus entre todas escolhida,
Virgem das virgens; Tu, que do assanhado
Tartáreo monstro com Teu pé sagrado
Esmagaste a cabeça entumecida;
Doce abrigo, santíssima guarida
De quem Te busca em lágrimas banhado,
Corrente com que as nódoas do pecado
Lava uma alma que geme arrependida;
Virgem, de estrelas nítidas c’roada,
Do Espírito, do Pai, do Filho Eterno,
Mãe, Filha, Esposa e, mais que tudo, amada:
Valha-me o teu poder e amor materno;
Guia este cego, arranca-me da estrada
Que vai parar ao tenebroso inferno!
É mais um poema bocagiano de arrependimento: “Guia este cego, arranca-me da estrada / Que vai parar ao tenebroso inferno!”, pede o poeta.
Convém notar que Bocage tem conhecimento muito aprofundado da teologia mariana: exalta Nossa Senhora não de um modo gratuito, mas com grande fundamento nos privilégios daquela que foi declarada Rainha do Céu e da Terra.
Quando ele Lhe chama “Virgem, de estrelas nítidas c’roada, / Do Espírito, do Pai, do Filho Eterno, / Mãe, Filha, Esposa e, mais que tudo, amada”, isto merece alguma explicação. Nossa Senhora é Mãe do Filho Eterno de Deus feito homem, Jesus Cristo; é Filha do Pai Eterno; e é Esposa do Espírito Santo, que misteriosamente a fecundou, para que dela nascesse Jesus.
Comparativamente, o poema de Francisco Palha era menos pretensioso.
domingo, 1 de junho de 2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
Momento poético 14
O mês de Maio é dedicado a Nossa Senhora. Como não tive ocasião de começar a apresentar, desde o seu princípio, poesia sobre a Mãe de Deus aqui no momento poético, vou ao menos fazê-lo agora. Aliás, Maria é um tema maior da nossa poesia de tema religioso. Já se viu no Magnificat que todas as gerações hão-de proclamá-La bem-aventurada.
Começo com uma variação sobre a Ave-Maria, uma paráfrase cujo autor ignoro. Eu copiei-a já há tempos, mas não tive o cuidado de fixar o nome do autor. Ele dedica três quadras à Ave-Maria e duas à Santa Maria. São versos muito bem feitos.
Ave Maria
“Ave, celeste Rainha!”,
outrora um anjo dizia,
e os homens há vinte séculos
repetem «Ave Maria!»
Graças do Céu Vos inundam,
O Senhor convosco habita;
Entre todas as mulheres,
Vós sois a mulher bendita.
Como Vós não há, Senhora,
Quem tantas graças concentre;
Jesus, o Filho do Eterno,
É fruto do vosso ventre.
Santa Maria, piedosa
Mãe de Deus e Mãe das Dores,
Sois o amparo dos caídos,
Rogai por nós, pecadores.
Agora no mar da vida
Sede Vós seguro norte;
Fazei-nos entrar o porto
Na hora da nossa morte.
O próximo texto é dum sacerdote contemporâneo do P.e António Vieira, também pregador notável, mas bastante mais novo que ele, o P.e Manuel Bernardes: 1644-1710. É um texto poético, mas não em verso. É um hino ou cântico de louvor, construído sob inspiração bíblica, quer quanto à estrutura anafórica e paralelística, quer quanto ao conteúdo principal. Vejamo-lo:
Cântico dos Louvores da Mãe Admirável, Maria Santíssima, Senhora Nossa
Louvai, obras do Senhor, a Senhora porque Ela é a mais nobre, a mais excelente e perfeita obra do Senhor!
Louvai, Sol e Lua, a Senhora porque a Senhora é escolhida como Sol e formosa como a Lua!
Louvai, estrelas do firmamento, a Senhora porque Ela é a radiante estrela que guia os navegantes do mar deste século!
Louvai, nuvens do Senhor, a Senhora porque Ela é a nuvem leve em que desceu a nós o Verbo de Deus humanado!
Louvai, orvalhos da manhã, a Senhora porque Ela é o velo de Gedeão que embebeu o celeste orvalho do Divino Verbo!
Louvai, neves e geadas, a Senhora porque o candor de sua pureza é o refrigério dos incentivos de nossa carne!
Louvai, raios e relâmpagos, a Senhora porque Ela é o resplendor claríssimo e eficacíssimo da luz da Divina Graça!
Louvai, todas as fontes e mares do Senhor, a Senhora porque a Senhora é fonte fechada com o selo de Deus, é o poço de águas vivas e o mar de todas as graças juntas!
Louvai, plantas e flores do campo, a Senhora porque Ela é a rosa de Jericó, o lírio entre espinhos, a palma de Cadés, o cedro do Líbano, a árvore da Vida, que nos produziu o fruto felicíssimo da vida eterna!
Louvai, montes do Senhor, a Senhora porque a Senhora é o monte santo de Sião, onde se fundou o templo vivo da Humanidade de Cristo!
Louvai, meninos inocentes, a Senhora porque de seu intacto ventre se dignou Deus nascer Menino para nos restituir à primeira inocência!
Louvai, sacerdotes do Senhor, a Senhora, pois ela foi a grande Sacerdotisa que em suas mãos tomou e ofereceu a Hóstia viva em perene sacrifício que tira os pecados do mundo!
Louvai, profetas do Senhor, a Senhora, porque Ela é a profetizada Profetiza a quem chegou o Espírito Santo com sua sombra para conhecer o Rei que tem por nome «Apressa-te a vencer e despojar teus inimigos»!
Louvai, Mártires do Senhor, a Senhora porque Ela foi mais que mártir, não só de Cristo e por amor de Cristo, como vós o fostes, mas no mesmo Cristo, cuja cruz a crucificava!
Louvai, Virgens do Senhor, a MARIA porque MARIA é da Virgindade a forma, a glória e o magistério! (...)
Todos os Santos, todos os Espíritos bem-aventurados, todas as criaturas do Céu e terra, louvem e exaltem e magnifiquem a MARIA, porque MARIA é a digníssima Rainha e absoluta Senhora dos Anjos e Santos e de todas as criaturas!
Glória a Deus Pai, de quem MARIA é filha primogénita; glória a Deus Filho, de quem MARIA é Mãe verdadeira; glória a Deus Espírito Santo, de quem MARIA é Esposa escolhida; glória à Beatíssima Trindade de quem MARIA é sacrário animado, e agora e sempre e por séculos de séculos!
Amém.
Em cada frase, depois da anáfora louvai, vem um vocativo, que envia para uma realidade sempre bíblica; a seguir, o autor declara que Maria supera essa realidade evocada. Isto até à doxologia que fecha o texto.
Começo com uma variação sobre a Ave-Maria, uma paráfrase cujo autor ignoro. Eu copiei-a já há tempos, mas não tive o cuidado de fixar o nome do autor. Ele dedica três quadras à Ave-Maria e duas à Santa Maria. São versos muito bem feitos.
Ave Maria
“Ave, celeste Rainha!”,
outrora um anjo dizia,
e os homens há vinte séculos
repetem «Ave Maria!»
Graças do Céu Vos inundam,
O Senhor convosco habita;
Entre todas as mulheres,
Vós sois a mulher bendita.
Como Vós não há, Senhora,
Quem tantas graças concentre;
Jesus, o Filho do Eterno,
É fruto do vosso ventre.
Santa Maria, piedosa
Mãe de Deus e Mãe das Dores,
Sois o amparo dos caídos,
Rogai por nós, pecadores.
Agora no mar da vida
Sede Vós seguro norte;
Fazei-nos entrar o porto
Na hora da nossa morte.
O próximo texto é dum sacerdote contemporâneo do P.e António Vieira, também pregador notável, mas bastante mais novo que ele, o P.e Manuel Bernardes: 1644-1710. É um texto poético, mas não em verso. É um hino ou cântico de louvor, construído sob inspiração bíblica, quer quanto à estrutura anafórica e paralelística, quer quanto ao conteúdo principal. Vejamo-lo:
Cântico dos Louvores da Mãe Admirável, Maria Santíssima, Senhora Nossa
Louvai, obras do Senhor, a Senhora porque Ela é a mais nobre, a mais excelente e perfeita obra do Senhor!
Louvai, Sol e Lua, a Senhora porque a Senhora é escolhida como Sol e formosa como a Lua!
Louvai, estrelas do firmamento, a Senhora porque Ela é a radiante estrela que guia os navegantes do mar deste século!
Louvai, nuvens do Senhor, a Senhora porque Ela é a nuvem leve em que desceu a nós o Verbo de Deus humanado!
Louvai, orvalhos da manhã, a Senhora porque Ela é o velo de Gedeão que embebeu o celeste orvalho do Divino Verbo!
Louvai, neves e geadas, a Senhora porque o candor de sua pureza é o refrigério dos incentivos de nossa carne!
Louvai, raios e relâmpagos, a Senhora porque Ela é o resplendor claríssimo e eficacíssimo da luz da Divina Graça!
Louvai, todas as fontes e mares do Senhor, a Senhora porque a Senhora é fonte fechada com o selo de Deus, é o poço de águas vivas e o mar de todas as graças juntas!
Louvai, plantas e flores do campo, a Senhora porque Ela é a rosa de Jericó, o lírio entre espinhos, a palma de Cadés, o cedro do Líbano, a árvore da Vida, que nos produziu o fruto felicíssimo da vida eterna!
Louvai, montes do Senhor, a Senhora porque a Senhora é o monte santo de Sião, onde se fundou o templo vivo da Humanidade de Cristo!
Louvai, meninos inocentes, a Senhora porque de seu intacto ventre se dignou Deus nascer Menino para nos restituir à primeira inocência!
Louvai, sacerdotes do Senhor, a Senhora, pois ela foi a grande Sacerdotisa que em suas mãos tomou e ofereceu a Hóstia viva em perene sacrifício que tira os pecados do mundo!
Louvai, profetas do Senhor, a Senhora, porque Ela é a profetizada Profetiza a quem chegou o Espírito Santo com sua sombra para conhecer o Rei que tem por nome «Apressa-te a vencer e despojar teus inimigos»!
Louvai, Mártires do Senhor, a Senhora porque Ela foi mais que mártir, não só de Cristo e por amor de Cristo, como vós o fostes, mas no mesmo Cristo, cuja cruz a crucificava!
Louvai, Virgens do Senhor, a MARIA porque MARIA é da Virgindade a forma, a glória e o magistério! (...)
Todos os Santos, todos os Espíritos bem-aventurados, todas as criaturas do Céu e terra, louvem e exaltem e magnifiquem a MARIA, porque MARIA é a digníssima Rainha e absoluta Senhora dos Anjos e Santos e de todas as criaturas!
Glória a Deus Pai, de quem MARIA é filha primogénita; glória a Deus Filho, de quem MARIA é Mãe verdadeira; glória a Deus Espírito Santo, de quem MARIA é Esposa escolhida; glória à Beatíssima Trindade de quem MARIA é sacrário animado, e agora e sempre e por séculos de séculos!
Amém.
Em cada frase, depois da anáfora louvai, vem um vocativo, que envia para uma realidade sempre bíblica; a seguir, o autor declara que Maria supera essa realidade evocada. Isto até à doxologia que fecha o texto.
terça-feira, 6 de maio de 2008
MOMENTO POÉTICO 13
Hoje vou ler dois sonetos cujos autores passaram pela Póvoa de Varzim. Breves passagens nos dois casos; são eles o P.e Abel Varzim e o beneditino Fr. Bernardo de Vasconcelos. Curiosamente, ambos nasceram em 1902.
O P.e Abel Varzim, que era de Cristelo, Barcelos, não fez profissão de escritor, mas tem muito belas páginas. Faleceu em 1964. Era irmão da D. Maria Paz Varzim. É conhecido sobretudo por ter tomado desde muito cedo uma atitude de distanciamento face ao regime de Salazar e também pelo modo como lidou com o fenómeno da prostituição na sua paróquia do Bairro Alto, em Lisboa. Foi no seu tempo uma figura muito conceituada. Deixou extraordinários relatos das suas experiências.
O Sr. Manuel Lopes ofereceu-me um dia um livrinho do P.e Abel Varzim; chama-se Procissão dos Passos, uma Vivência no Bairro Alto. Eu já conhecia o conteúdo através dum volume maior. Parece-me que o adjectivo empolgante é a palavra certa para o caracterizar.
http://www.ecclesia.pt/destaque/abelvarzim/abel_varzim.htm
O beneditino Fr. Bernardo de Vasconcelos (1902-1932), esse era de mais longe, de Celorico de Basto. Morreu muito jovem e teve também uma vida de grande santidade, que os seus contemporâneos reconheceram. E reconheceram também o seu valor literário. Está em curso o processo para a sua beatificação e canonização.
Não conheço o seu livro de versos Cântico de Amor, mas por algumas referências que já vi à sua poesia, deduzo que deve ser muito bom. Dele só conheço um livro autobiográfico, Vida de Amor.
Segundo Frei Geraldo Coelho Dias, Frei Bernardo Vasconcelos é um dos "maiores "poetas místicos do nosso país (…) As suas poesias, afirma o mesmo professor, impressionaram profundamente os meios católicos da década de trinta e ainda hoje os seus versos catapultam a nossa alma para "os confins do sonho e da espiritualidade".
http://alexandrina.balasar.free.fr/bernardo_de_vasconcelos_pt.htm
Vamos aos sonetos: o do P.e Abel Varzim conta, figuradamente, a vastidão da decadência moral que encontrou na sua paróquia lisboeta e a luta titânica que desenvolveu para a enfrentar.
Desci, a passo e passo, a longa escada
Que leva em linha recta à podridão.
Mal eu cheguei, soou como um trovão
A mais feroz, sarcástica risada.
E vi!... eu vi a face desvairada
Do Mal erguer-se. E – tétrica visão –!
Fazer-me a mesma torva recepção
Numa sonora e louca gargalhada.
"Que fazes tu aqui? Tudo isto é meu!
Só meu! De mais ninguém! Fica-o sabendo!"
E, com rancor, tentou despedaçar-me.
Fiquei! Mas quem combate não sou eu,
Porque eu, só de ver o Mal, ia morrendo.
E morrendo inda estou só de lembrar-me.
Fr. Bernardo de Vasconcelos, no soneto que vou ler, compara os seus anseios místicos às ousadias dos voos duma águia que está acontemplar:
Voo de águia
- Debruçado, cismando, na janela,
Desfruto o voo teu — altivo e forte —
Quando buscas a estrela do teu norte
E eu o oriente à minha estrela.
- Sonhas altiva, e eu humilde, a glória,
Ambos no mesmo anseio, eterno, imenso...
Eu no sonhar o meu viver condenso,
Tu tens no voo — a esp 'rança de vitória.
- Enquanto nesse anseio inconsciente
Tu queres voar mais alto, imensamente,
Que os teus inda voaram pelos céus,
— Eu busco noutros céus, inda mais belos,
A meta a que se votam meus anelos
Na adoração extática de Deus.
Fr. Bernardo de Vasconcelos interveio no importante congresso eucarístico nacional que teve lugar em Braga em 1924; veio de lá encantado, particularmente com o que ouvi ao futuro Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira e a Salazar.
O P.e Abel Varzim, que era de Cristelo, Barcelos, não fez profissão de escritor, mas tem muito belas páginas. Faleceu em 1964. Era irmão da D. Maria Paz Varzim. É conhecido sobretudo por ter tomado desde muito cedo uma atitude de distanciamento face ao regime de Salazar e também pelo modo como lidou com o fenómeno da prostituição na sua paróquia do Bairro Alto, em Lisboa. Foi no seu tempo uma figura muito conceituada. Deixou extraordinários relatos das suas experiências.
O Sr. Manuel Lopes ofereceu-me um dia um livrinho do P.e Abel Varzim; chama-se Procissão dos Passos, uma Vivência no Bairro Alto. Eu já conhecia o conteúdo através dum volume maior. Parece-me que o adjectivo empolgante é a palavra certa para o caracterizar.
http://www.ecclesia.pt/destaque/abelvarzim/abel_varzim.htm
O beneditino Fr. Bernardo de Vasconcelos (1902-1932), esse era de mais longe, de Celorico de Basto. Morreu muito jovem e teve também uma vida de grande santidade, que os seus contemporâneos reconheceram. E reconheceram também o seu valor literário. Está em curso o processo para a sua beatificação e canonização.
Não conheço o seu livro de versos Cântico de Amor, mas por algumas referências que já vi à sua poesia, deduzo que deve ser muito bom. Dele só conheço um livro autobiográfico, Vida de Amor.
Segundo Frei Geraldo Coelho Dias, Frei Bernardo Vasconcelos é um dos "maiores "poetas místicos do nosso país (…) As suas poesias, afirma o mesmo professor, impressionaram profundamente os meios católicos da década de trinta e ainda hoje os seus versos catapultam a nossa alma para "os confins do sonho e da espiritualidade".
http://alexandrina.balasar.free.fr/bernardo_de_vasconcelos_pt.htm
Vamos aos sonetos: o do P.e Abel Varzim conta, figuradamente, a vastidão da decadência moral que encontrou na sua paróquia lisboeta e a luta titânica que desenvolveu para a enfrentar.
Desci, a passo e passo, a longa escada
Que leva em linha recta à podridão.
Mal eu cheguei, soou como um trovão
A mais feroz, sarcástica risada.
E vi!... eu vi a face desvairada
Do Mal erguer-se. E – tétrica visão –!
Fazer-me a mesma torva recepção
Numa sonora e louca gargalhada.
"Que fazes tu aqui? Tudo isto é meu!
Só meu! De mais ninguém! Fica-o sabendo!"
E, com rancor, tentou despedaçar-me.
Fiquei! Mas quem combate não sou eu,
Porque eu, só de ver o Mal, ia morrendo.
E morrendo inda estou só de lembrar-me.
Fr. Bernardo de Vasconcelos, no soneto que vou ler, compara os seus anseios místicos às ousadias dos voos duma águia que está acontemplar:
Voo de águia
- Debruçado, cismando, na janela,
Desfruto o voo teu — altivo e forte —
Quando buscas a estrela do teu norte
E eu o oriente à minha estrela.
- Sonhas altiva, e eu humilde, a glória,
Ambos no mesmo anseio, eterno, imenso...
Eu no sonhar o meu viver condenso,
Tu tens no voo — a esp 'rança de vitória.
- Enquanto nesse anseio inconsciente
Tu queres voar mais alto, imensamente,
Que os teus inda voaram pelos céus,
— Eu busco noutros céus, inda mais belos,
A meta a que se votam meus anelos
Na adoração extática de Deus.
Fr. Bernardo de Vasconcelos interveio no importante congresso eucarístico nacional que teve lugar em Braga em 1924; veio de lá encantado, particularmente com o que ouvi ao futuro Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira e a Salazar.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
DO CONFUSO MUNDO À ILHA DOS AMORES
0 – Introdução
Falar sobre Os Lusíadas não é tarefa fácil. Mas o que pretendo fazer é só convidar quem me veio ouvir para uma reflexão sobre o sentido da Ilha dos Amores. Não está em causa dizer grandes novidades nem grandes verdades, mas só pensar um pouco sobre esta narrativa, num ambiente diferente do da aula. Aliás talvez ele seja um dos trechos mais difíceis da epopeia.
A Ilha dos Amores alonga-se por 220 estrofes, o que corresponde a quase dois cantos (se considerarmos o tamanho médio dos cantos d’Os Lusíadas).
E é uma narrativa predominantemente não histórica, de ficção. E porque é ficção ecoam nela muitos textos líricos de Camões, que ajudam a interpretá-la. Eu vou considerar sobretudo estes dois fragmentos:
Verdade, amor, razão, merecimento
qualquer alma farão segura e forte;
porém, fortuna, caso, tempo e sorte
têm do confuso mundo o regimento.
(Do soneto Verdade, amor, razão, merecimento)
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.
(Da canção Vinde cá, meu tão certo secretário)
Na quadra do soneto, o poeta considera o confuso mundo, o mundo real (onde os nossos méritos pessoais pouco contam, pois tudo depende do acaso, do tempo e da sorte) e um mundo ideal (onde a verdade, o amor, a razão e o mérito dariam segurança à nossa vida).
No segundo fragmento, confessa ele que, para suportar as dores sem fim com que a vida continuamente o atormenta, fabrica na fantasia fantásticas pinturas de alegria.
Nos dois fragmentos são afirmados um mundo real, tormentoso, confuso, e um mundo idealizado de felicidade.
Nesta perspectiva, a Ilha dos Amores seria, globalmente, uma fantástica pintura de alegria oposta à realidade do confuso mundo.
Vejamos então o plano da narrativa:
Plano da Ilha dos Amores
1. Preparativos (por parte de Vénus)
2. A écloga:
a. O locus amoenus
b. O idílio (encontro amoroso)
c. O caso de Leonardo
d. A interpretação alegórica
3. O banquete:
a. O banquete
b. O canto profético
4. A lição pós-prandial:
a. A máquina do mundo
b. O anúncio profético
c. O regresso à Pátria na companhia das ninfas
Qualquer uma destas quatro partes da narrativa é importante e não deve ser isolada do contexto. A razão dessa importância varia para cada caso.
1 – Os preparativos
Aparentemente esta parte dos preparativos é a mais fácil e a menos problemática: Vénus, que sempre esteve com os navegantes desde o princípio da epopeia, resolve presenteá-los com uma ilha de delícias e põe tudo em marcha para conseguir este ojectivo.
Eu vou-me fixar apenas numa das muitas estrofes dos preparativos, que vem particularmente ao encontro da ideia que orienta as minhas reflexões. É a 28.ª do c. IX, que descreve as altas e inesperadas preocupações morais que movem Vénus. Insisto nas as altas e inesperadas preocupações morais que a movem. O narrador está a falar na terceira pessoa, mas a focalização é interna, revela o pensamento da deusa:
Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo caridade
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade;
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade;
Leis em favor do Rei se estabelecem,
As em favor do povo só perecem.
Ela refere-se primeiro às ordens religiosas e depois aos políticos (talvez anacronicamente, pois se calhar está a falar do tempo de Camões e não do tempo do Gama). Mas parece o cardeal a falar; e é para corrigir situações destas que prepara a Ilha divina…
Quem diria que estas eram as suas preocupações! E os meios de que vai lançar mão serão os mais aptos para atingir tais fins?
É indispensável que quem orienta a leitura do episódio tenha em atenção estes objectivos. Caso contrário, um dia poderá ser apodado de aldrabão.
2 - A écloga
Camões escreveu várias éclogas. A écloga canta normalmente a vida dos pastores, mas canta sobretudo os seus amores. O espaço da écloga é o campo, não um campo qualquer, mas um locus amoenus, um campo de beleza ideal, perfeitamente ecológico. O carácter não realista desta composição convida ao sonho, à ficção. Momentos de écloga afloram frequentemente quer em muitas composições poéticas que não são propriamente éclogas quer mesmo n’Os Lusíadas (é o caso de muitos sonetos e redondilhas que têm momentos pastoris, na lírica, e o episódio da Linda Inês, o do Adamastor…). A Ínsula divina, onde os nautas se vão deparar com as Ninfas, teria de ser um espaço idealizado de écloga, um belíssimo locus amoenus, cheio de verdura, de águas cantantes e cristalinas e de sol:
Três formosos outeiros se mostravam,
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramíneo esmalte se adornavam,
Na formosa ilha, alegre e deleitosa.
Claras fontes e límpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa linfa fugitiva.
Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras águas ajuntar-se,
Onde uma mesa fazem, que se estende
Tão bela quanto pode imaginar-se.
Arvoredo gentil sobre ela pende,
Como que pronto está para afeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.
Reparar que estas estrofes são dum entendimento excepcionalmente fácil, bem ao contrário das que se lhes seguem, muito dependentes das Metamorfoses de Ovídio, livro de cabeceira de Camões. De reparar que isto não descreve toda a ilha, pois que lá existe um maravilhoso palácio…
É neste espaço, muito longe do confuso mundo, que o poeta situa a parte da fantástica pintura de alegria que é o encontro amoroso dos nautas com as ninfas, a que chamei idílio.
Para o meu propósito, basta-me tecer algumas considerações sobre duas estrofes desse texto, de quando Leonardo persegue a ninfa Efire, que simula não lhe querer corresponder:
Todas de correr cansam, ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mim só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh, não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.
Não canses, que me cansas! E se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, ainda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
‘Tra la spiga e la man qual muro è messo’.
O texto é muito bonito, cheio de subtilezas maneiristas e conclui-se com uma citação de Petrarca.
Sabe-se que Leonardo representa Camões. Se na lírica o amor é para o poeta sempre ocasião para lamento, neste episódio de ficção, embora se faça claro eco desses lamentos, ele está fora do confuso mundo e por isso vai acabar bem sucedido, em alegria.
Não se justifica parar mais com o idílio, até porque é preciso distribuir o tempo por toda a narrativa. O que é indispensável é notar a interpretação alegórica que lhe dá poeta e que os planos de Vénus já continham. Ele alonga-se nessa interpretação. Veja-se por exemplo esta estrofe:
Que as Ninfas do Oceano, tão formosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada,
Outra coisa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha,
Estes são os deleites desta ilha.
Repito o reparo que já fiz: um professor que não dê a devida importância a estes versos, provavelmente estará a enganar os seus alunos.
Vejam-se agora estas palavras dirigidas aos leitores, que rematam o canto:
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos.
O encontro amoroso foi apenas um modo figurado de falar, e o poeta desclassifica com uma só vassourada todos os intérpretes boçais destas cenas. Todos sem excepção.
Antes de começar esta narrativa, escrevera o épico a respeito dos nautas:
O prazer de chegar à pátria cara,
A seus penates caros e parentes,
Para contar a peregrina e rara
Navegação, os vários céus e gentes;
Vir a lograr o prémio que ganhara,
Por tão longos trabalhos e acidentes:
Cada um tem por gosto tão perfeito
Que o coração para ele é vaso estreito.
Isto é que estará figurado neste encontro, e será uma coisa tão pessoal como o amor.
3 - O banquete
Ainda no canto IX, já fala o poeta dum palácio que existe no cimo da ilha: «uma rica fábrica se erguia, / De cristal toda e de ouro puro e fino». Fábrica será construção, edifício. É neste novo espaço de maravilha (semelhante ao do Olimpo e ao do Palácio de Neptuno) que decorre o banquete. E deve ser mais importante que a cena anterior: é um momento de serenidade, de acordo entre as ninfas e os navegantes, que se aceitam mutuamente numa união definitiva, matrimonial; a comida e a bebida são superiores às dos deuses, a baixela é de ouro e diamante, há «subtis e argutos ditos» (certamente ao modo palaciano ou maneirista) – e há música. Mais, parece que há uma pequena orquestra ou banda («músicos instrumentos») e a respectiva solista, a sirena ou sereia. O efeito da música e do canto é soberbo:
Um súbito silêncio enfreia os ventos
E faz ir docemente murmurando
As águas, e nas casas naturais
Adormecer os brutos animais.
Deve estar aqui alguma reminiscência órfica, como aliás noutros passos da produção poética de Camões.
E que canta a sereia?
Em canto pretensamente profético (no nosso dia-a-dia não lidamos com profetas…), ela anuncia os feitos futuros de vários portugueses, nomeadamente dos vice-reis do Oriente. Neste devaneio pseudo-profético, os nautas acedem a uma certa pseudo-omnisciência divinizante, que se reforçará à frente.
Eu conheço pouco da história do Império Português do Oriente (de que a sereia fala). Por isso o que vou dizer não vem inteiramente a propósito. São só algumas palavras sobre os dois nomes cimeiros da nossa gesta oriental, D. Afonso de Albuquerque e D. João de Castro.
D. Afonso de Albuquerque foi quem tomou Goa e Malaca, pilares do domínio marítimo no Índico e parte do Pacífico. Era descendente em sexto grau do fundador do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde.
Convém saber uma coisa que não vem no texto, nem podia vir, que houve um bispo natural de Vila do Conde, que foi genealogista e geógrafo, D. João Ribeiro Gaio de seu nome, mais ou menos contemporâneo de Camões, que escreveu sobre essas paragens orientais das proximidades de Malaca. Um homem da nossa vizinhança, portanto, que também foi de lá.
D. João de Castro é um herói do tempo da juventude de Camões (morre em 1548) e estou em crer que as suas inauditas façanhas terão estimulado o poeta (quem sabe se decisivamente) a escrever Os Lusíadas. Este guerreiro, político e cientista teve, na hora da morte, a assistência de Fr. João de Vila do Conde (que com ele lidou em vida).
O contributo científico deste vice-rei relaciona-se com a derivação da agulha magnética. Mas como não foi publicado, mais tarde houve um estrangeiro quer o repetiu e ficou com os louros duma prioridade imerecida.
4 - A lição pós-prandial
Prândio, em latim, significa o jantar; mas o adjectivo pós-prandial tem algum uso em português. E é após o jantar, quando acabam o banquete e a música, que os navegantes vão contemplar uma nova maravilha. Falo também de lição por causa da mensagem contida nestes versos:
Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
A professora vai ser Tétis, que fala ao modo duma profetisa antiga ou duma mística moderna a quem Deus revelasse as suas vontades..
Navegantes e ninfas sobem então a uma colina, «por um mato / Árduo, difícil, duro a humano trato», que é a imagem do caminho do saber. Temos certamente agora o momento supremo do poema, o da Máquina (ou transunto) do Mundo, que é uma original miniatura do universo ainda no modelo geocêntrico (a teoria heliocêntrica de Copérnico – 1473-1543 – ainda estava muito longe de ser aceite; ele fora só teórico):
Não andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêem no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfície, claramente.
Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes, que a Divina verga
Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Volvendo, ora se abaixe, agora se erga,
Nunca se ergue ou se abaixa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Começa e acaba, enfim, por divina arte,
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquétipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: – «O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, para que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.
Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende».
Se a alguém parecesse que o idílio amoroso afastava irremediavelmente do poema o seu sentido católico, repare que ele é aqui reafirmado, como aliás em muito outros lugares[1].
Camões não acerta sempre: faz pouco sentido colocar Vénus lá atrás e agora Tétis nesta postura tão católica; mas foi assim que reiteradamente escreveu.
É indispensável compreender o sentido da totalidade da narrativa da Ilha dos Amores para nelas integrar tão harmoniosamente quanto possível as famosas estrofes da segunda metade do canto IX. Quem não conseguir isso tenha pelo menos a certeza de que pouco percebeu do episódio, mesmo dessas estrofes.
Reparemos ainda nalguns versos da presente lição. Na estrofe 82, ensina Tétis:
…………….. eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só para fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
Procede-se aqui à anulação dos deuses greco-romanos, o que já o poeta fizera no final do canto IX.
Isto merece-me um aparte. Esta anulação lembra-me um texto de S. Martinho de Dume (Dume é junto a Braga e S. Martinho viveu nos séculos V e VI) em que ele ensina também que os deuses são nada, ou menos do que nada, e depois insurge-se contra o hábito de os colocar nos nomes dos dias da semana. É curioso que só em português é que eles foram eliminados…
Passando por cima de novo momento proléptico, agora pela palavra de Tétis, e avançando muito, para o fim do episódio, não queria deixar de lembrar que é aqui que se anuncia o naufrágio em que Camões salva o manuscrito d’Os Lusíadas. Mas vejamos mais três versos, atribuídos ao narrador principal do poema, pois os navegantes estão já no mar:
Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
Se eles trouxeram com eles as Ninfas, nós poderemos ser parentes delas… Houve dois nautas vila-condenses na armada do Gama.
O que isto faz é confirmar que a idealização de alegria, onde parecia que a verdade, o amor, a razão e o mérito se tinham conjugado para exaltar os autores dum grande feito, são qualquer coisa de muito íntimo e pessoal. Ninguém os tira aos seus autores. O resto é aparato alegórico.
O mundo real é o da confusão, e nele não conta muitas vezes o mérito nem a verdade, mas a sorte, o aparente acaso.
A cada um de nós também apeteceria dizer:
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo e o pão que como
lágrimas tristes são que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.
Na Ilha dos Amores há um aspecto irónico. Camões coloca-a no momento da viagem em que os nautas passaram os momentos de maior horror, quando, no regresso, atravessavam o Índico. Pouco faltou para que morressem todos.
Se bem se repara, Camões usou, digamos, vários ingredientes para construir esta fantástica pintura de alegria: a fantasia e a alegoria, por momentos o erotismo, a mitologia, a história, a ciência do tempo e o cristianismo. A apreciação global do episódio não pode prescindir de nenhum.
ESEQ, 23/04/08
[1] Não se justificaria alguma aproximação entre o que chamei idílio e o nu do Juízo Final de Miguel Ângelo? Este mural foi aberto ao público em 1536.
Falar sobre Os Lusíadas não é tarefa fácil. Mas o que pretendo fazer é só convidar quem me veio ouvir para uma reflexão sobre o sentido da Ilha dos Amores. Não está em causa dizer grandes novidades nem grandes verdades, mas só pensar um pouco sobre esta narrativa, num ambiente diferente do da aula. Aliás talvez ele seja um dos trechos mais difíceis da epopeia.
A Ilha dos Amores alonga-se por 220 estrofes, o que corresponde a quase dois cantos (se considerarmos o tamanho médio dos cantos d’Os Lusíadas).
E é uma narrativa predominantemente não histórica, de ficção. E porque é ficção ecoam nela muitos textos líricos de Camões, que ajudam a interpretá-la. Eu vou considerar sobretudo estes dois fragmentos:
Verdade, amor, razão, merecimento
qualquer alma farão segura e forte;
porém, fortuna, caso, tempo e sorte
têm do confuso mundo o regimento.
(Do soneto Verdade, amor, razão, merecimento)
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.
(Da canção Vinde cá, meu tão certo secretário)
Na quadra do soneto, o poeta considera o confuso mundo, o mundo real (onde os nossos méritos pessoais pouco contam, pois tudo depende do acaso, do tempo e da sorte) e um mundo ideal (onde a verdade, o amor, a razão e o mérito dariam segurança à nossa vida).
No segundo fragmento, confessa ele que, para suportar as dores sem fim com que a vida continuamente o atormenta, fabrica na fantasia fantásticas pinturas de alegria.
Nos dois fragmentos são afirmados um mundo real, tormentoso, confuso, e um mundo idealizado de felicidade.
Nesta perspectiva, a Ilha dos Amores seria, globalmente, uma fantástica pintura de alegria oposta à realidade do confuso mundo.
Vejamos então o plano da narrativa:
Plano da Ilha dos Amores
1. Preparativos (por parte de Vénus)
2. A écloga:
a. O locus amoenus
b. O idílio (encontro amoroso)
c. O caso de Leonardo
d. A interpretação alegórica
3. O banquete:
a. O banquete
b. O canto profético
4. A lição pós-prandial:
a. A máquina do mundo
b. O anúncio profético
c. O regresso à Pátria na companhia das ninfas
Qualquer uma destas quatro partes da narrativa é importante e não deve ser isolada do contexto. A razão dessa importância varia para cada caso.
1 – Os preparativos
Aparentemente esta parte dos preparativos é a mais fácil e a menos problemática: Vénus, que sempre esteve com os navegantes desde o princípio da epopeia, resolve presenteá-los com uma ilha de delícias e põe tudo em marcha para conseguir este ojectivo.
Eu vou-me fixar apenas numa das muitas estrofes dos preparativos, que vem particularmente ao encontro da ideia que orienta as minhas reflexões. É a 28.ª do c. IX, que descreve as altas e inesperadas preocupações morais que movem Vénus. Insisto nas as altas e inesperadas preocupações morais que a movem. O narrador está a falar na terceira pessoa, mas a focalização é interna, revela o pensamento da deusa:
Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo caridade
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade;
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade;
Leis em favor do Rei se estabelecem,
As em favor do povo só perecem.
Ela refere-se primeiro às ordens religiosas e depois aos políticos (talvez anacronicamente, pois se calhar está a falar do tempo de Camões e não do tempo do Gama). Mas parece o cardeal a falar; e é para corrigir situações destas que prepara a Ilha divina…
Quem diria que estas eram as suas preocupações! E os meios de que vai lançar mão serão os mais aptos para atingir tais fins?
É indispensável que quem orienta a leitura do episódio tenha em atenção estes objectivos. Caso contrário, um dia poderá ser apodado de aldrabão.
2 - A écloga
Camões escreveu várias éclogas. A écloga canta normalmente a vida dos pastores, mas canta sobretudo os seus amores. O espaço da écloga é o campo, não um campo qualquer, mas um locus amoenus, um campo de beleza ideal, perfeitamente ecológico. O carácter não realista desta composição convida ao sonho, à ficção. Momentos de écloga afloram frequentemente quer em muitas composições poéticas que não são propriamente éclogas quer mesmo n’Os Lusíadas (é o caso de muitos sonetos e redondilhas que têm momentos pastoris, na lírica, e o episódio da Linda Inês, o do Adamastor…). A Ínsula divina, onde os nautas se vão deparar com as Ninfas, teria de ser um espaço idealizado de écloga, um belíssimo locus amoenus, cheio de verdura, de águas cantantes e cristalinas e de sol:
Três formosos outeiros se mostravam,
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramíneo esmalte se adornavam,
Na formosa ilha, alegre e deleitosa.
Claras fontes e límpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa linfa fugitiva.
Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras águas ajuntar-se,
Onde uma mesa fazem, que se estende
Tão bela quanto pode imaginar-se.
Arvoredo gentil sobre ela pende,
Como que pronto está para afeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.
Reparar que estas estrofes são dum entendimento excepcionalmente fácil, bem ao contrário das que se lhes seguem, muito dependentes das Metamorfoses de Ovídio, livro de cabeceira de Camões. De reparar que isto não descreve toda a ilha, pois que lá existe um maravilhoso palácio…
É neste espaço, muito longe do confuso mundo, que o poeta situa a parte da fantástica pintura de alegria que é o encontro amoroso dos nautas com as ninfas, a que chamei idílio.
Para o meu propósito, basta-me tecer algumas considerações sobre duas estrofes desse texto, de quando Leonardo persegue a ninfa Efire, que simula não lhe querer corresponder:
Todas de correr cansam, ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mim só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh, não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.
Não canses, que me cansas! E se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, ainda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
‘Tra la spiga e la man qual muro è messo’.
O texto é muito bonito, cheio de subtilezas maneiristas e conclui-se com uma citação de Petrarca.
Sabe-se que Leonardo representa Camões. Se na lírica o amor é para o poeta sempre ocasião para lamento, neste episódio de ficção, embora se faça claro eco desses lamentos, ele está fora do confuso mundo e por isso vai acabar bem sucedido, em alegria.
Não se justifica parar mais com o idílio, até porque é preciso distribuir o tempo por toda a narrativa. O que é indispensável é notar a interpretação alegórica que lhe dá poeta e que os planos de Vénus já continham. Ele alonga-se nessa interpretação. Veja-se por exemplo esta estrofe:
Que as Ninfas do Oceano, tão formosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada,
Outra coisa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha,
Estes são os deleites desta ilha.
Repito o reparo que já fiz: um professor que não dê a devida importância a estes versos, provavelmente estará a enganar os seus alunos.
Vejam-se agora estas palavras dirigidas aos leitores, que rematam o canto:
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos.
O encontro amoroso foi apenas um modo figurado de falar, e o poeta desclassifica com uma só vassourada todos os intérpretes boçais destas cenas. Todos sem excepção.
Antes de começar esta narrativa, escrevera o épico a respeito dos nautas:
O prazer de chegar à pátria cara,
A seus penates caros e parentes,
Para contar a peregrina e rara
Navegação, os vários céus e gentes;
Vir a lograr o prémio que ganhara,
Por tão longos trabalhos e acidentes:
Cada um tem por gosto tão perfeito
Que o coração para ele é vaso estreito.
Isto é que estará figurado neste encontro, e será uma coisa tão pessoal como o amor.
3 - O banquete
Ainda no canto IX, já fala o poeta dum palácio que existe no cimo da ilha: «uma rica fábrica se erguia, / De cristal toda e de ouro puro e fino». Fábrica será construção, edifício. É neste novo espaço de maravilha (semelhante ao do Olimpo e ao do Palácio de Neptuno) que decorre o banquete. E deve ser mais importante que a cena anterior: é um momento de serenidade, de acordo entre as ninfas e os navegantes, que se aceitam mutuamente numa união definitiva, matrimonial; a comida e a bebida são superiores às dos deuses, a baixela é de ouro e diamante, há «subtis e argutos ditos» (certamente ao modo palaciano ou maneirista) – e há música. Mais, parece que há uma pequena orquestra ou banda («músicos instrumentos») e a respectiva solista, a sirena ou sereia. O efeito da música e do canto é soberbo:
Um súbito silêncio enfreia os ventos
E faz ir docemente murmurando
As águas, e nas casas naturais
Adormecer os brutos animais.
Deve estar aqui alguma reminiscência órfica, como aliás noutros passos da produção poética de Camões.
E que canta a sereia?
Em canto pretensamente profético (no nosso dia-a-dia não lidamos com profetas…), ela anuncia os feitos futuros de vários portugueses, nomeadamente dos vice-reis do Oriente. Neste devaneio pseudo-profético, os nautas acedem a uma certa pseudo-omnisciência divinizante, que se reforçará à frente.
Eu conheço pouco da história do Império Português do Oriente (de que a sereia fala). Por isso o que vou dizer não vem inteiramente a propósito. São só algumas palavras sobre os dois nomes cimeiros da nossa gesta oriental, D. Afonso de Albuquerque e D. João de Castro.
D. Afonso de Albuquerque foi quem tomou Goa e Malaca, pilares do domínio marítimo no Índico e parte do Pacífico. Era descendente em sexto grau do fundador do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde.
Convém saber uma coisa que não vem no texto, nem podia vir, que houve um bispo natural de Vila do Conde, que foi genealogista e geógrafo, D. João Ribeiro Gaio de seu nome, mais ou menos contemporâneo de Camões, que escreveu sobre essas paragens orientais das proximidades de Malaca. Um homem da nossa vizinhança, portanto, que também foi de lá.
D. João de Castro é um herói do tempo da juventude de Camões (morre em 1548) e estou em crer que as suas inauditas façanhas terão estimulado o poeta (quem sabe se decisivamente) a escrever Os Lusíadas. Este guerreiro, político e cientista teve, na hora da morte, a assistência de Fr. João de Vila do Conde (que com ele lidou em vida).
O contributo científico deste vice-rei relaciona-se com a derivação da agulha magnética. Mas como não foi publicado, mais tarde houve um estrangeiro quer o repetiu e ficou com os louros duma prioridade imerecida.
4 - A lição pós-prandial
Prândio, em latim, significa o jantar; mas o adjectivo pós-prandial tem algum uso em português. E é após o jantar, quando acabam o banquete e a música, que os navegantes vão contemplar uma nova maravilha. Falo também de lição por causa da mensagem contida nestes versos:
Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
A professora vai ser Tétis, que fala ao modo duma profetisa antiga ou duma mística moderna a quem Deus revelasse as suas vontades..
Navegantes e ninfas sobem então a uma colina, «por um mato / Árduo, difícil, duro a humano trato», que é a imagem do caminho do saber. Temos certamente agora o momento supremo do poema, o da Máquina (ou transunto) do Mundo, que é uma original miniatura do universo ainda no modelo geocêntrico (a teoria heliocêntrica de Copérnico – 1473-1543 – ainda estava muito longe de ser aceite; ele fora só teórico):
Não andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêem no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfície, claramente.
Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes, que a Divina verga
Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Volvendo, ora se abaixe, agora se erga,
Nunca se ergue ou se abaixa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Começa e acaba, enfim, por divina arte,
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquétipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: – «O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, para que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.
Vês aqui a grande Máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende».
Se a alguém parecesse que o idílio amoroso afastava irremediavelmente do poema o seu sentido católico, repare que ele é aqui reafirmado, como aliás em muito outros lugares[1].
Camões não acerta sempre: faz pouco sentido colocar Vénus lá atrás e agora Tétis nesta postura tão católica; mas foi assim que reiteradamente escreveu.
É indispensável compreender o sentido da totalidade da narrativa da Ilha dos Amores para nelas integrar tão harmoniosamente quanto possível as famosas estrofes da segunda metade do canto IX. Quem não conseguir isso tenha pelo menos a certeza de que pouco percebeu do episódio, mesmo dessas estrofes.
Reparemos ainda nalguns versos da presente lição. Na estrofe 82, ensina Tétis:
…………….. eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só para fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
Procede-se aqui à anulação dos deuses greco-romanos, o que já o poeta fizera no final do canto IX.
Isto merece-me um aparte. Esta anulação lembra-me um texto de S. Martinho de Dume (Dume é junto a Braga e S. Martinho viveu nos séculos V e VI) em que ele ensina também que os deuses são nada, ou menos do que nada, e depois insurge-se contra o hábito de os colocar nos nomes dos dias da semana. É curioso que só em português é que eles foram eliminados…
Passando por cima de novo momento proléptico, agora pela palavra de Tétis, e avançando muito, para o fim do episódio, não queria deixar de lembrar que é aqui que se anuncia o naufrágio em que Camões salva o manuscrito d’Os Lusíadas. Mas vejamos mais três versos, atribuídos ao narrador principal do poema, pois os navegantes estão já no mar:
Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
Se eles trouxeram com eles as Ninfas, nós poderemos ser parentes delas… Houve dois nautas vila-condenses na armada do Gama.
O que isto faz é confirmar que a idealização de alegria, onde parecia que a verdade, o amor, a razão e o mérito se tinham conjugado para exaltar os autores dum grande feito, são qualquer coisa de muito íntimo e pessoal. Ninguém os tira aos seus autores. O resto é aparato alegórico.
O mundo real é o da confusão, e nele não conta muitas vezes o mérito nem a verdade, mas a sorte, o aparente acaso.
A cada um de nós também apeteceria dizer:
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo e o pão que como
lágrimas tristes são que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.
Na Ilha dos Amores há um aspecto irónico. Camões coloca-a no momento da viagem em que os nautas passaram os momentos de maior horror, quando, no regresso, atravessavam o Índico. Pouco faltou para que morressem todos.
Se bem se repara, Camões usou, digamos, vários ingredientes para construir esta fantástica pintura de alegria: a fantasia e a alegoria, por momentos o erotismo, a mitologia, a história, a ciência do tempo e o cristianismo. A apreciação global do episódio não pode prescindir de nenhum.
ESEQ, 23/04/08
[1] Não se justificaria alguma aproximação entre o que chamei idílio e o nu do Juízo Final de Miguel Ângelo? Este mural foi aberto ao público em 1536.
terça-feira, 15 de abril de 2008
MOMENTO POÉTICO 11
Na poesia de Camões, como na de Bocage e de outros poetas, há um antes e um agora, definidos por uma adesão determinada e datada à fé. Na Sôbolos rios, Camões fala da sua palinódia, do seu canto novo, de retractação:
Ouça-me o pastor e o rei,
Retumbe este acento santo,
Mova-se no mudo espanto;
Que do que já mal cantei
A palinódia já canto.
António José Saraiva escreveu uma vez que na vida do poeta terá ocorrido uma espécie de “elección inaciana, de golpe macedónico”, de uma conversão ao modo de alguns dos primeiros jesuítas. Mas os poemas camonianos não estão datados e por isso não podemos definir um momento preciso para essa conversão.
Mas Os Lusíadas tem data de publicação. E aí a adesão ao Cristianismo é entusiástica.
O soneto que vou ler, pelo tom que o percorre, parece do antes: o poeta expõe nele uma visão da vida onde se não sente uma mínima presença iluminadora da fé:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe o próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu.
Este soneto tem influência evidente do livro bíblico de Job e das narrativas apocalípticas. É um texto em que a dor de viver, o sem sentido do mundo são expressos com uma força inaudita. Em casos como este, parece-me que Camões tem a dureza dum Miguel Ângelo, com a sua conhecida terribilitá.
Veja-se agora como o soneto lido está distante destes versos das redondilhas de Sôbolos rios:
Tanto pode o benefício
Da Graça, que dá saúde,
Que ordena que a vida mude:
E o que eu tomei por vício
Me faz grau para a virtude.
E faz que este natural
Amor, que tanto se preza,
Suba da sombra ao real,
Da particular beleza
Para a Beleza geral.
Fique logo pendurada
A flauta com que tangi,
Ó Jerusalém sagrada,
E tome a lira dourada
Para só cantar de ti;
Não cativo e aferrolhado
Na Babilónia infernal,
Mas dos vícios desatado
E cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.
E se eu mais der a cerviz
A mundanos acidentes,
Duros, tiranos e urgentes,
Risque-se quanto já fiz
Do grão livro dos viventes.
E, tomando já na mão
A lira santa e capaz
Doutra mais alta invenção,
Cale-se esta confusão,
Cante-se a visão da paz!
Ouça-me o pastor e o rei,
Retumbe este acento santo,
Mova-se no mudo espanto;
Que do que já mal cantei
A palinódia já canto.
As chamadas redondilhas de Sôbolos Rios são uma paráfrase, uma variação sobre o Salmo 120, onde ouvimos os judeus, cativos em Babilónia e saudosos da Templo de Jerusalém; aí podiam cantar livremente a gratidão ao seu Deus. Mas o poema Camões é complexo. Babel ou Babilónia representam os anos desregrados que o oprimiram, Jerusalém, onde fica Sião, é o Céu.
Mas está aqui também nítida influência do filósofo Platão.
Ouça-me o pastor e o rei,
Retumbe este acento santo,
Mova-se no mudo espanto;
Que do que já mal cantei
A palinódia já canto.
António José Saraiva escreveu uma vez que na vida do poeta terá ocorrido uma espécie de “elección inaciana, de golpe macedónico”, de uma conversão ao modo de alguns dos primeiros jesuítas. Mas os poemas camonianos não estão datados e por isso não podemos definir um momento preciso para essa conversão.
Mas Os Lusíadas tem data de publicação. E aí a adesão ao Cristianismo é entusiástica.
O soneto que vou ler, pelo tom que o percorre, parece do antes: o poeta expõe nele uma visão da vida onde se não sente uma mínima presença iluminadora da fé:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe o próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu.
Este soneto tem influência evidente do livro bíblico de Job e das narrativas apocalípticas. É um texto em que a dor de viver, o sem sentido do mundo são expressos com uma força inaudita. Em casos como este, parece-me que Camões tem a dureza dum Miguel Ângelo, com a sua conhecida terribilitá.
Veja-se agora como o soneto lido está distante destes versos das redondilhas de Sôbolos rios:
Tanto pode o benefício
Da Graça, que dá saúde,
Que ordena que a vida mude:
E o que eu tomei por vício
Me faz grau para a virtude.
E faz que este natural
Amor, que tanto se preza,
Suba da sombra ao real,
Da particular beleza
Para a Beleza geral.
Fique logo pendurada
A flauta com que tangi,
Ó Jerusalém sagrada,
E tome a lira dourada
Para só cantar de ti;
Não cativo e aferrolhado
Na Babilónia infernal,
Mas dos vícios desatado
E cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.
E se eu mais der a cerviz
A mundanos acidentes,
Duros, tiranos e urgentes,
Risque-se quanto já fiz
Do grão livro dos viventes.
E, tomando já na mão
A lira santa e capaz
Doutra mais alta invenção,
Cale-se esta confusão,
Cante-se a visão da paz!
Ouça-me o pastor e o rei,
Retumbe este acento santo,
Mova-se no mudo espanto;
Que do que já mal cantei
A palinódia já canto.
As chamadas redondilhas de Sôbolos Rios são uma paráfrase, uma variação sobre o Salmo 120, onde ouvimos os judeus, cativos em Babilónia e saudosos da Templo de Jerusalém; aí podiam cantar livremente a gratidão ao seu Deus. Mas o poema Camões é complexo. Babel ou Babilónia representam os anos desregrados que o oprimiram, Jerusalém, onde fica Sião, é o Céu.
Mas está aqui também nítida influência do filósofo Platão.
sábado, 12 de abril de 2008
MOMENTO POÉTICO 10
Este 10º momento poético é dedicado a Bocage (1765-1805). E ele merece-o. Embora eu só conheça pela rama a sua biografia, é sabido que morreu muito jovem (40 anos) e que no final da vida viveu uma sincera e profunda conversão. Isto deslegitima logo muita coisa que se diz e se escreve sobre ele. Mas há mais.
Vamos agora ouvir este conhecido soneto seu:
MEU SER EVAPOREI NA LIDA INSANA
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões que me arrastava.
Ah, cego, eu cria, ah, mísero, eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos!
Deus, ó Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe num momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Vamos distinguir duas coisas no soneto, o reconhecimento sincero de que o poeta falhou a vida e a imaginária hiperbólica usada.
Em relação ao arrependimento, ele revê a vida passada e reconhece o seu falhanço:
Meu ser evaporei na lida insana/Do tropel de paixões que me arrastava.
Esta alma, que sedenta em si não coube,/No abismo vos sumiu dos desenganos.
Etc.
Quanto à linguagem hiperbólica, vejam-se estes exemplos:
Meu ser evaporei na lida insana/Do tropel de paixões que me arrastava.
De que inúmeros sóis a mente ufana/Existência falaz me não dourava!
E ainda estas apóstrofes declamatórias:
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Deus, ó Deus!...
Mas o poema desemboca na declaração de que o autor reconhece um antes e um agora:
Ganhe num momento o que perderam anos,/Saiba morrer o que viver não soube.
O antes é o período da vida falhada ("viver não soube") e o agora ("saiba morrer") é o do arrependimento e da conversão.
Mas há um segundo soneto onde o tema do arrependimento regressa ainda com mais força, é o que começa Já Bocage não sou: à cova escura.
Já Bocage não sou, à cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento.
Eu aos céus ultrajei; o meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa, tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
Eu me arrependo: língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui!... A santidade
Manchei!... Oh, se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Bocage não escreveu este soneto, ditou-o no leito da agonia. Mas no tom declamatório, empolado, continua igual a si mesmo
A segunda parte do soneto é um grito dirigido à juventude para que se acautele: "A santidade/Manchei!... "
Mas reparemos agora no verso final:
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Uma vez ouvi na Escola Secundária de Eça de Queirós um professor de Coimbra a defender que se não devia publicar A Tragédia da Rua das Flores de Eça de Queirós, porque ele a não publicou e integrou o que no livro havia de mais válido n’Os Maias. Eu penso que a razão invocada é válida, mas estas palavras tão claras de Bocage, ditadas do leito da agonia, não serão ainda muito mais para respeitar? Com que direito, carregando nas cores, se divulga um Bocage que nada tem a ver com este “testamento”? Eça não disse nada que se parecesse com isto.
Antes de terminar, porque, se calhar, não voltarei a Bocage, quero ler o terceto final do seu Hino a Deus:
Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.
Muito mal se pode tratar um homem…
Vamos agora ouvir este conhecido soneto seu:
MEU SER EVAPOREI NA LIDA INSANA
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões que me arrastava.
Ah, cego, eu cria, ah, mísero, eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos!
Deus, ó Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe num momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Vamos distinguir duas coisas no soneto, o reconhecimento sincero de que o poeta falhou a vida e a imaginária hiperbólica usada.
Em relação ao arrependimento, ele revê a vida passada e reconhece o seu falhanço:
Meu ser evaporei na lida insana/Do tropel de paixões que me arrastava.
Esta alma, que sedenta em si não coube,/No abismo vos sumiu dos desenganos.
Etc.
Quanto à linguagem hiperbólica, vejam-se estes exemplos:
Meu ser evaporei na lida insana/Do tropel de paixões que me arrastava.
De que inúmeros sóis a mente ufana/Existência falaz me não dourava!
E ainda estas apóstrofes declamatórias:
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Deus, ó Deus!...
Mas o poema desemboca na declaração de que o autor reconhece um antes e um agora:
Ganhe num momento o que perderam anos,/Saiba morrer o que viver não soube.
O antes é o período da vida falhada ("viver não soube") e o agora ("saiba morrer") é o do arrependimento e da conversão.
Mas há um segundo soneto onde o tema do arrependimento regressa ainda com mais força, é o que começa Já Bocage não sou: à cova escura.
Já Bocage não sou, à cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento.
Eu aos céus ultrajei; o meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa, tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
Eu me arrependo: língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui!... A santidade
Manchei!... Oh, se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Bocage não escreveu este soneto, ditou-o no leito da agonia. Mas no tom declamatório, empolado, continua igual a si mesmo
A segunda parte do soneto é um grito dirigido à juventude para que se acautele: "A santidade/Manchei!... "
Mas reparemos agora no verso final:
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Uma vez ouvi na Escola Secundária de Eça de Queirós um professor de Coimbra a defender que se não devia publicar A Tragédia da Rua das Flores de Eça de Queirós, porque ele a não publicou e integrou o que no livro havia de mais válido n’Os Maias. Eu penso que a razão invocada é válida, mas estas palavras tão claras de Bocage, ditadas do leito da agonia, não serão ainda muito mais para respeitar? Com que direito, carregando nas cores, se divulga um Bocage que nada tem a ver com este “testamento”? Eça não disse nada que se parecesse com isto.
Antes de terminar, porque, se calhar, não voltarei a Bocage, quero ler o terceto final do seu Hino a Deus:
Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.
Muito mal se pode tratar um homem…
quarta-feira, 2 de abril de 2008
MOMENTO POÉTICO 09
Em tempo de Ressurreição, vamos ouvir hoje dois poemas de louvor a Deus, um de António Correia de Oliveira (1879-1960), o outro de Bocage (1765-1805). O primeiro tem o interesse de nos colocar numa perspectiva teológica que deveria ser bastante moderna no seu tempo e que mantém clara actualidade. É uma perspectiva que vemos por exemplo nessa extraordinária obra em prosa que são nos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner. É possível que esteja aqui algo do poeta alemão Rainer Maria Rilke ou do teólogo e paleontólogo francês Teilhard de Chardin. É interessante notar isto, porque a muitos poetas do séc. XX, hoje esquecidos, que cantaram o tema religioso, faltou uma verdadeira actualização teológica. O poema de António Correia de Oliveira intitula-se Louvemos ao Senhor!
Louvemos ao Senhor
Louvemos ao Senhor: as mãos ergamos
Como, ao Sinal da Luz, ávidos ramos
Na sombria espessura!
A terra seja o Adro; os céus a Igreja:
E a vocação sacerdotal esteja
Em toda a Criatura.
Louvemos ao Senhor. Sobre o Mistério,
Pulsados como as cordas do saltério,
Ressoem os sentidos:
Exulte, sob o Espírito que exulta,
Sidérea vida sufocada e oculta
Em olhos ou ouvidos.
Pois o verbo da Esp 'rança é sempre novo;
Tão cheio de Futuro qual um ovo
É cheio de asa e canto...
A agrura não entende o lavrador;
Mas, nós, — jeiras do Eterno, — ao seu amor
Profundemos o encanto.
Louvemos o Senhor. Dizei: “Bendito
Por quanto fez e nos deixou escrito
Em água, estrela ou flor”.
Deus, que de nós se paga e se contenta
Quando, ao Seu Livro, um homem acrescenta:
— Louvemos ao Senhor! —
Louvai-o nos caminhos da alegria;
E, — muito mais ainda, — no negro dia
Da súbita amargura...
A terra, seja o Adro, os céus a Igreja;
E a vocação sacerdotal esteja
Em toda a Criatura.
A propósito da «vocação sacerdotal», convém saber que a palavra sacerdote parece ter o sentido etimológico de aquele que comunica o sagrado, o intermediário do sagrado junto dos homens. No caso, a expressão indica que cabe ao homem ser o intermediário entre o mundo e Deus, ser a voz do louvor que as coisas mudas elevam ao Criador.
Agora um soneto de Bocage. Para o seu tempo, ele foi também um homem muito culto. Na sua estrofe inicial, há também algo de dimensão cósmica, pois o autor aprecia temas que o elevem a um tom grandioso. A terminar, dirigindo-se sempre a Deus, o poeta fala da sua alma acesa em alta fé:
Ó Tu, que tens no seio a eternidade
Ó Tu, que tens no seio a eternidade
E em cujo resplendor o Sol se acende;
Grande, imutável Ser, de quem depende
A harmonia da etérea imensidade;
Amigo e benfeitor da humanidade,
Da mesma que Te nega e que Te ofende,
Manda ao meu coração que à dor se rende,
Manda o reforço da eficaz piedade!
Opressa, consternada a natureza,
Em mim com vozes lânguidas Te implora,
Órgãos do sentimento e da tristeza.
A Tua inteligência nada ignora.
Sabes bem que, de alta fé minha alma acesa,
Té nas angústias o teu braço adora.
Creio que faz mesmo falta uma antologia desta poesia. Há de facto no âmbito deste tema textos muito bem pensados, de grande elevação poética.
Louvemos ao Senhor
Louvemos ao Senhor: as mãos ergamos
Como, ao Sinal da Luz, ávidos ramos
Na sombria espessura!
A terra seja o Adro; os céus a Igreja:
E a vocação sacerdotal esteja
Em toda a Criatura.
Louvemos ao Senhor. Sobre o Mistério,
Pulsados como as cordas do saltério,
Ressoem os sentidos:
Exulte, sob o Espírito que exulta,
Sidérea vida sufocada e oculta
Em olhos ou ouvidos.
Pois o verbo da Esp 'rança é sempre novo;
Tão cheio de Futuro qual um ovo
É cheio de asa e canto...
A agrura não entende o lavrador;
Mas, nós, — jeiras do Eterno, — ao seu amor
Profundemos o encanto.
Louvemos o Senhor. Dizei: “Bendito
Por quanto fez e nos deixou escrito
Em água, estrela ou flor”.
Deus, que de nós se paga e se contenta
Quando, ao Seu Livro, um homem acrescenta:
— Louvemos ao Senhor! —
Louvai-o nos caminhos da alegria;
E, — muito mais ainda, — no negro dia
Da súbita amargura...
A terra, seja o Adro, os céus a Igreja;
E a vocação sacerdotal esteja
Em toda a Criatura.
A propósito da «vocação sacerdotal», convém saber que a palavra sacerdote parece ter o sentido etimológico de aquele que comunica o sagrado, o intermediário do sagrado junto dos homens. No caso, a expressão indica que cabe ao homem ser o intermediário entre o mundo e Deus, ser a voz do louvor que as coisas mudas elevam ao Criador.
Agora um soneto de Bocage. Para o seu tempo, ele foi também um homem muito culto. Na sua estrofe inicial, há também algo de dimensão cósmica, pois o autor aprecia temas que o elevem a um tom grandioso. A terminar, dirigindo-se sempre a Deus, o poeta fala da sua alma acesa em alta fé:
Ó Tu, que tens no seio a eternidade
Ó Tu, que tens no seio a eternidade
E em cujo resplendor o Sol se acende;
Grande, imutável Ser, de quem depende
A harmonia da etérea imensidade;
Amigo e benfeitor da humanidade,
Da mesma que Te nega e que Te ofende,
Manda ao meu coração que à dor se rende,
Manda o reforço da eficaz piedade!
Opressa, consternada a natureza,
Em mim com vozes lânguidas Te implora,
Órgãos do sentimento e da tristeza.
A Tua inteligência nada ignora.
Sabes bem que, de alta fé minha alma acesa,
Té nas angústias o teu braço adora.
Creio que faz mesmo falta uma antologia desta poesia. Há de facto no âmbito deste tema textos muito bem pensados, de grande elevação poética.
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